PRÁXIS Reflexão e Debate sobre Trabalho e Sindicalismo
Sindicalismo, Direitos Laborais...

A temperatura sobe e a produtividade desce!

Estamos prontos para o verão escaldante no trabalho?

Partilhar

foto publicada, sem autoria, no site da CGTP-IN 

E quem é que está na linha de frente para lutar por quem trabalha? Os sindicatos! É nossa obrigação, e não apenas dever, mas uma necessidade imperativa, de pegar este touro pelos chifres. Não basta apagar incêndios; temos que ser bombeiros visionários, antecipar as chamas antes que o prédio pegue fogo.  

O futuro, meus amigos, está aí! A aquecer e a passos largos! 

Mãos à obra: como medir a “febre” do trabalho? 

Para combater esse problema, precisamos saber o tamanho do “monstro”. Não vale a pena andar às cegas. Seguem algumas ideias e propostas, no bom estilo “mão na massa”: 

  • Diagnósticar a temperatura com termômetro e conversa com os trabalhadores : É importante realizar avaliações de conforto térmico nos locais de trabalho (podemos começar com grupos ou áreas para experimentar, mas começar!). Não é só ver a temperatura no termômetro; é preciso ir além! Que tal pesquisas anônimas com trabalhadores? E reuniões abertas para que cada um compartilhe suas experiências e sugestões? A voz de quem sente na pele o calor excessivo é a mais importante. 
  • Mapas de calor : Vamos criar mapas de calor dos locais de trabalho! Uma ferramenta visual que identifique os pontos críticos, as áreas mais quentes, e ajude a priorizar intervenções. Isso pode ser feito com o apoio de especialistas em saúde ocupacional e segurança ocupacional. Os representantes para a HST devem ser chamados a intervir. Onde não há, aproveita-se e elegem-se. 
  •  
  • Olhar para o futuro, hoje : É fundamental conhecer os estudos e cenários climáticos futuros e sua projeção nos ambientes de trabalho. O que os especialistas dizem sobre as próximas décadas? Como o design dos edifícios e os métodos de trabalho precisarão se adaptar? Esse é o momento de pensar no longo prazo. 

 Ação sindical “fresca” e determinada:  

não deixemos ninguém suar sozinho! 

Qual é o plano de ataque? Como é que os sindicatos e as CTs podem ser a brisa fresca de que os trabalhadores tanto precisam? 

  • Negociação coletiva com ar condicionado (e consciência!): É urgente incluir cláusulas específicas sobre conforto térmico nos Acordos de Empresa e nos Contratos Coletivos de Trabalho. Estas devem contemplar:  
  • Limites máximos de temperatura: Definir claramente temperaturas máximas admissíveis para diferentes tipos de trabalho e ambientes. 
  • Medidas de adaptação obrigatórias: Exigir às empresas a implementação de medidas como: sistemas de ventilação e climatização adequados, fornecimento de água potável fresca, pausas para arrefecimento, espaços frescos de recuperação, e, em casos extremos, a possibilidade de redução do horário de trabalho ou alteração de turnos em picos de calor. 
  • Investimento em infraestruturas: Negociar o investimento em infraestruturas que promovam o conforto térmico, desde isolamento de edifícios a sistemas de sombreamento. 
  • Formação e sensibilização “Anti-Calor”: Queremos que todos saibam os riscos do calor, como se proteger e quais são os seus direitos. Um trabalhador informado é um trabalhador mais seguro! Os sindicatos devem promover sessões de formação e sensibilização. 
  • Alianças pelo “fresquinho”: Vamos construir alianças estratégicas! Com investigadores, universidades, associações de saúde ocupacional e até mesmo com as próprias empresas que se preocupam com a produtividade e o bem-estar dos seus trabalhadores. Juntos, somos mais fortes para influenciar políticas públicas e normativas. 
  • “Sindicato Alerta”: A Campanha de Consciencialização: Lançar uma campanha nacional de sensibilização sobre o impacto do calor nos locais de trabalho. Com um nome cativante, materiais informativos e ações visíveis, esta campanha pode gerar pressão pública e mobilizar a sociedade para a importância do conforto térmico. E seguramente obtém mesmo financiamento público. 
  • Propostas legislativas arrojadas: Os sindicatos devem ser proativos na apresentação de propostas de alteração legislativa – independentemente do Governo do momento que garantam o direito ao conforto térmico como um componente essencial da saúde e segurança no trabalho e que contribui decisivamente para a propdutividade.. É preciso que a lei reflita a realidade das alterações climáticas e proteja quem trabalha. 

 Nossos irmãos, avante! 

Informar-me e escrever sobre este tema quente, ocorreu-me a partir dum projeto que conheci das CCOO (Comisiones Obreras) de Espanha, realizado pelo ISTAS (Isntituto Sindical para o Trabalho, Ambiente e Saúde). 

É o projeto Calor Adapt , um projeto sobre a adaptação e melhoria da gestão preventiva das atividades produtivas e dos serviços aos eventos e ondas de calor, através da participação das “pessoas trabalhadoras”.  

O site do projeto contem abundante informação, materiais, estudos, videos e até um guia prático para a gestão do calor no local de trabalho, bem como uma proposta de intervenção para reduzir o risco de stress térmico. 

Foi ralizado um vasto inquérito e um diagnóstico. Certo que Portugal não se compara bem com a Espanha. Segundo a OCDE, em 2024, com dados de 2015, Turquia, Espanha e Grécia ocupam as piores posições em exposição a calor excessivo em pelo menos metade da jornada de trabalho. Portugal está a 1/3 da tabela e ligeiramente abaixo da média. 

Mas convém mesmo não esquecer o slogan das CCOO: o calor no trabalho tem limite, atua para não te queimares! 

Não estamos a zero! 

Por aqui também não estamos zerados. A CGTP tem algumas publicações sobre o assunto que precisam ser registradas e consultadas. Sobre Mudanças climáticas e os impactos na Segurança e Saúde no Trabalho , que publica em seu site, se diz “ciente(s) da exigência dos desafios que temos pela frente e do trabalho contínuo que isso implica” e remete ao guia TEMPERATURAS ELEVADAS– GUIA PARA OS LOCAIS DE TRABALHO , com edição em português, da Agência Europeia para a Saúde e Segurança no Trabalho 

Também a FIEQUIMETAL , a federação sindical dominante nas industrias e que tem um continuado trabalho nestas área, nomeadamente de formação e de sensibilização para os riscos e prevenção, tem dedicado atenção ao calor nos locais de trabalho, muito baseada nas orientações da EU-OSHA (difundindo o mesmo guia que a central sindical). Essa Federação publica uma revista, a +Seguro que vale a pena conferir. O número que aparece clicando no título atrás, contém até um quadro com um conjunto de informações muito úteis sobre avaliação de riscos, seus efeitos e as atividades mais suscetíveis a causar problemas. 

 

da revista da FIEQUIMETAL – apenas o topo da tabela 

A UGT , por sua vez, também tem dedicado atenção ao problema, seja integrando-o ao contexto de práticas e condições ergonômicas, como aqui, nesta sua Folha Informativa +Segurança & Saúde no Trabalho , ou neste número 33 , dedicado também ao ambiente térmico.  

Esta organização publica regularmente Trabalho+Seguro | Revista Sindical de SST (capa em ilustração ao lado) 

A UGT assume e divulga os estudos e posições da CES – Confederação Europeia de Sindicatos, como aqui, em que se denuncia o aumento de 40% de mortalidade no trabalho pelo calor. 

Quando no passado mês de Março 2025 a CES tomou posição “sobre o conteúdo de uma diretiva relativa à prevenção dos riscos de calor no trabalho” , a UGT traduziu e publicou a informação. Essa resolução da CES é, aliás, uma leitura que recomendo ( aqui em tradução da UGT). Esta resolução estabelece as principais exigências do movimento sindical europeu para serem incluídas em uma diretiva sobre a prevenção do calor no trabalho. Ele pede uma proteção de todos os trabalhadores contra o estresse causado pelo calor, um risco que muitas vezes afeta os trabalhadores de setores com condições de trabalho tipicamente precárias. 

A OIT (com delegação em Lisboa) também tem estudado e publicado estudos e alertas sobre esse perigo derivado da emergência climática em que vivemos. Recomenda-se ao menos a leitura atenta da síntese do relatório  Garantir a segurança e a saúde no trabalho num clima em mudança , OIT, edição portuguesa , Abril 2024, com referências bibliográficas. O relatório mais completo , de um pouco mais de 100 paginas, encontra-se aqui . A DGERT, por sua vez, tem apoiado e publicado informações pertinentes e ecoado o que a OIT avança 

Por ultimo, gostaria de salientar e recomendar uma visita a uma rede de peritos diversos, de diferentes nacionalidades, La Isla Network . Tem versão em português . Trata-se duma ONG que reúne profissionais para lidar com o estresse por calor e outros riscos climáticos. Trabalha com epidemiologistas e clínicos , com pesquisadores, economistas, antropólogos e sociólogos com vistas a enfrentar o estresse por calor e os riscos de segurança e saúde ocupacional em todos os níveis. Também trabalhou o relatório da OIT e sobre ele publica um conjunto de 9 lições, sendo a 1ª aqui . 

 O calor está a mudar as regras do jogo.  

Não podemos ficar de braços cruzados vendo a saúde dos trabalhadores evaporar e a produtividade derreter. Os sindicatos têm um papel crucial e uma oportunidade de ouro para serem a voz da razão, da precaução e da ação. É hora de arregaçar as mangas, ou melhor, refrescar as ideias e lutar por ambientes de trabalho onde você possa, literalmente, respirar aliviado. Porque um trabalhador fresco é um trabalhador feliz, produtivo e, acima de tudo, saudável!  

Estão prontos para ligar o “turbo” nesta luta e garantir um futuro de trabalho mais “fresco” para todos? 

Ulises Garrido

VOGAL Conselho Fiscal

Sindicalista, formador, activista social e sociólogo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Este site utiliza cookies para melhorar sua experiência. Presumiremos que você concorda com isso, mas você pode cancelar se desejar. Aceitar Lear mais..

TRADUÇÃO