VAMOS CONQUISTAR MAIS TEMPO?
1 de Maio de 1926 — 1 de Maio de 2026
100 anos de fim-de-semana:
VAMOS CONQUISTAR MAIS TEMPO?

Ulisses Garrido, dirigente da Praxis
Sou flho dum operário metalúrgico. Natural de Castelo Branco, era sempre um momento alto do ano quando em Agosto podíamos rumar à Figueira da Foz. Mas era eu e a minha mãe, pois o pai não tinha férias. Depois começou a ter uma semana, depois duas.
Durante o ano, o trabalho era duro e intenso. Quando criança, o pai só não trabalhava ao domingo. Depois, já eu rapazola, anos 60, lembro-me de ter passado à semana inglesa. Houve lutas sindicais. Foi a primeira vez, que me lembre, que ouvi falar de sindicato. O meu pai descreveu-me bem a situação: o sindicato tinha conseguido a redução do horário de trabalho, creio que para 45h. Depois, tardou a chegar à semana de 5 dias, mesmo assim com horas repartidas pelo horário dos restantes dias.
Mas, curioso, faz agora exatamente cem anos, muito antes, portanto, que num país que vivia a euforia dos anos vinte, a Ford Motor Company tomou uma decisão que mudaria para sempre o uso do tempo de vida dos trabalhadores. A 1 de Maio de 1926, Henry Ford anunciou a adoção de uma semana de trabalho de cinco dias e quarenta horas para todos os seus operários. Não foi um gesto de generosidade.
Foi uma aposta estratégica, uma leitura fria de que trabalhadores com tempo livre eram também consumidores com dinheiro para gastar — incluindo automóveis Ford.
Independentemente da motivação, o efeito político e social foi enorme: o fm-de- semana de dois dias nasceu como realidade industrial.
Cem anos depois, vale a pena parar e perguntar: chegámos onde devíamos ter chegado? Depois de tanta teoria da sociedade do lazer, etc, como estamos de horário de trabalho, quando as máquinas já tanto nos substituem?
O longo caminho até sábado e domingo
A conquista da semana de cinco dias não foi um presente caído do céu. Antes de 1926, a maioria dos trabalhadores industriais americanos e europeus trabalhava seis dias por semana, doze a catorze horas por dia. A luta pela jornada de oito horas tinha ocupado décadas de mobilização sindical — foi precisamente a 1 de Maio de 1886, em Chicago, que trabalhadores marcharam por esse direito, numa data que se tornaria o Dia Internacional do Trabalho. Quarenta anos depois, Ford formalizava esse ritmo em cinco dias.
O que a Ford fez foi criar um padrão que os sindicatos, ao longo das décadas seguintes, universalizaram por via da negociação coletiva e da legislação. Nos Estados Unidos, a Lei de Normas Laborais Justas de 1938 instituiu as quarenta horas semanais como norma federal. Na Europa, o processo foi gradual e diferenciado por país, mas o modelo fordista tornou-se hegemónico: oito horas por dia, cinco dias por semana, quarenta horas no total.
A história do século XX em matéria de tempo de trabalho pode ser contada em duas etapas: primeiro, uma redução extraordinária — a semana típica caiu de oitenta horas no início da industrialização para quarenta horas a meio do século; depois, uma estagnação prolongada.
Como nota o Manifesto da Rede Europeia de Tempo de Trabalho ( https://worktimenet.eu/ ), “apesar dos múltiplos avanços tecnológicos em automação, comunicação e informática, continuamos a trabalhar o mesmo número de horas que os nossos avós.”
Em alguns contextos de precariedade, as pessoas trabalham até mais. E em certas culturas dominantes (como a portuguesa), “parece mal às chefas se saímos à hora”!

