A Inteligência Artificial (IA) também é dos sindicatos!

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A participação não deve começar quando a tecnologia já está instalada e muitas escolhas já foram feitas. É preciso entrar antes.

Não negociar apenas as consequências. Participar também no processo de transformação.

  • Outro exemplo vem dos portos. A ETF desenvolveu um instrumento de negociação com um título claro: No AI Without Us.

Há uma pergunta de que gosto particularmente: quem define o que significa “otimizar”?

Otimizar parece tecnicamente neutro. Mas otimizar o quê? Custos? Velocidade? Número de trabalhadores? Segurança? Qualidade? Emprego? Condições de trabalho?

Um algoritmo pode otimizar aquilo que lhe pedimos. Mas alguém decidiu primeiro o que devia ser otimizado. Essa decisão é económica e organizacional. Também pode ser discutida e negociada.

Em Portugal , a CGTP-IN, tem na sua Política Reivindicativa para 2027 um bloco detalhado de exigências sobre governação, negociação coletiva, supervisão humana, privacidade, não discriminação e auditoria da IA no local de trabalho. Também a política reivindicativa da UGT para 2026-2027 inclui regular a IA no trabalho, com transparência dos algoritmos, supervisão humana, proteção de dados e participação sindical.

Estamos pois no bom caminho, num ano dominado pela disputa e derrota da reforma laboral, o risco é a IA ficar para depois. E, no calendário acima, depois já é amanhã.

A IA na sede do sindicato

A tecnologia que pode vigiar um trabalhador pode também ajudar uma delegada a ler uma convenção coletiva em minutos, a aceder à interpretação sindical e a instruções de aplicação prática.

Os sindicatos de outros países já estão a experimentar, e as experiências mais interessantes têm uma coisa em comum: a IA serve para libertar tempo para o contacto humano, pessoal, não para o substituir.

  • Organizar, não só atender os sócios: O chatbot WorkIt nasceu nos Estados Unidos, na organização OUR, e foi adaptado pelo United Workers Union, na Austrália. O estudo que o analisou concluiu que só funcionou quando foi redesenhado com uma lógica de organização e não de serviço, e que não poupou trabalho: obrigou o sindicato a repensar como fala com quem representa.
  • Treinar delegados: O PCS, sindicato britânico, testou com o apoio do TUC uma ferramenta que simula uma conversa no local de trabalho sobre aderir ao sindicato. Serve para ensaiar, aprender, aperfeiçoar-se. A ferramenta foi libertada em código aberto para outros sindicatos.
  • Navegar pelas clausulas do contrato: A UWUA, nos Estados Unidos, está a juntar IA a uma base de dados nacional de contratos, ao registo de queixas sobre a não aplicação e a assistentes  especializados por contrato que ajudam membros e delegados a encontrar cláusulas para os casos a analisar. São desenhados como ferramentas de navegação e não como aconselhamento jurídico.
  • Informar, não aconselhar. O sindicato britânico de professores NASUWT testou um chatbot nas páginas de ajuda do site, só para perguntas informativas. Os casos concretos ficam com quadros preparadas e especializadas.

Há aqui um aviso importante e estratégico, que o próprio TUC levanta. Se uma aplicação de IA consegue dar a qualquer pessoa um conselho convincente e personalizado, mesmo quando não é o melhor ou absolutamente seguro, o que oferece um sindicato que valha o valor da quota? A resposta está no que a máquina não faz: organizar, representar, negociar, ganhar força coletiva.

 Continuação do caso da Marta

Em vez de se queixarem, a Marta e o sindicato decidiram fazer três coisas numa semana.

Primeiro, com um assistente de IA, redigem um pedido de informação ao abrigo do artigo 106.º e uma lista de perguntas: que dados alimentam o sistema de horários, que peso tem o ritmo de atendimento, quem pode rever uma decisão.

Segundo, pedem ao assistente que compare as cláusulas sobre horários e bónus em três convenções do setor, a partir de textos públicos, e marque as diferenças.

Terceiro, um jurista do sindicato revê tudo antes de sair. Nenhum dado pessoal dos colegas entra na ferramenta.

Resultado, na simulação: a empresa responde que o sistema pesa o tempo médio de chamada e a duração das pausas. A Marta leva isso a uma reunião, com números, e propõe uma cláusula. A IA não negociou nada, poupou dias de leitura, e esses dias foram gastos a falar com os colegas.

Seis regras para um uso ético

Um sindicato que exige transparência às empresas tem de a praticar.

Seis regras, para começar, que cabem numa folha e se podem aprovar em reunião de direção:

  1. Os dados dos associados ficam à porta. A filiação sindical é um dado de categoria especial no RGPD (o regulamento europeu de proteção de dados). Não vai para ferramentas públicas; só entra em soluções com garantias contratuais, com o mínimo de dados e anónimos sempre que possível.
  2. Uma pessoa decide e assina sempre. A IA propõe, rascunha e resume. Quem responde a um associado, decide uma ação ou assina um documento é sempre um ser humano.
  3. O que é jurídico passa por um jurista. Estes sistemas IA enganam-se com grande facilidade. Pareceres, prazos e cálculos verificam-se na fonte antes de saírem.
  4. Diz-se quando é IA. Se um associado fala com um assistente, tem de o saber. Se um texto foi rascunhado com IA, a responsabilidade continua a ser do sindicato.
  5. Sem vigilância. Nada de perfis de associados ou delegados, nem de análise de emoções ou de voz. É exatamente o que se critica nas empresas.
  6. Primeiro negoceia-se em casa. A entrada de IA na sede é falada com quem lá trabalha, com informação, formação e a garantia de que não serve para avaliar nem substituir pessoas.

Fontes

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