A tecnologia não decide sozinha

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Ulisses Garrido, Sindicalista, ativista social, sociólogo

“A inteligência artificial já está nos escritórios, nos armazéns, nos portos e nos bancos. Quanto do futuro do trabalho está escrito nos algoritmos — mas quanto depende de decisões que ainda podemos tomar? Dados europeus e portugueses, casos e propostas para uma resposta que não seja nem pânico nem complacência.“…

Há perguntas que chegam tarde. «Devemos ou não ter inteligência artificial?» é uma delas. A IA já escolhe o que vemos, sugere o que compramos, orienta os nossos trajetos, responde quando telefonamos e, cada vez mais, organiza o modo como trabalhamos. A discussão que interessa é outra: que trabalho queremos numa economia em que a IA existe? Que empregos, que qualificações, que direitos, que distribuição dos ganhos — e, sobretudo, quem participa nas decisões?

Não faltam razões de inquietação, e nem todas são laborais. Discute-se se o investimento gigantesco em IA alimenta uma bolha financeira capaz de provocar uma turbulência violenta dos mercados. Fazem-se contas à energia que os centros de dados vão exigir, à água e aos recursos necessários para arrefecer os seus servidores. Tudo isto integra já uma nova corrida tecnológica global, cada vez mais ligada à rivalidade geopolítica. E há riscos reais: sistemas cada vez mais autónomos cometem erros, aprofundam desigualdades e podem causar danos graves quando faltam regras, supervisão humana e responsabilidades claramente atribuídas.

Até alguns dirigentes das grandes empresas tecnológicas começam a reconhecer a necessidade de travões e limites — e temos o direito de perguntar porquê, e em que termos. Alguns investigadores colocam os desenvolvimentos mais extremos da IA entre os grandes riscos globais. Não há consenso sobre a dimensão ou a probabilidade desse perigo, mas ignorá-lo seria irresponsável. Por isso o argumento a favor de definir e adotar regras ganha rapidamente terreno. Brad Smith, presidente da Micorsoft, declarou recentemente que “neste momento, a sua máquina de lavar roupa está sujeita a mais regras de segurança do que a IA. Cada embalagem de leite que vê no supermercado está sujeita a regras de segurança e a inspeção”. Precisamos de legislação para os sistemas e agentes digitais; talvez, mais ainda, de pôr alguma ordem no espaço digital.

Este artigo ocupa-se apenas duma parte desse debate: o trabalho. A tese é simples. A tecnologia abre possibilidades; quem as converte em emprego, salários, tempo livre ou desemprego são decisões económicas, organizacionais e políticas. Não se trata, portanto, de adivinhar o futuro, mas de perceber onde e o que ainda podemos escolher.

A tecnologia sempre transformou o trabalho: da mecanização à eletrificação, da informática à Internet e agora à IA. Mas cada uma dessas transformações foi também sempre económica, social e política. A pergunta nunca foi apenas o que consegue fazer a tecnologia? Foi sempre também o que decidimos fazer com ela?

Escrevo como sindicalista — condição que não me faz deixar de ser sociólogo nem ativista social — e escrevo a partir de Portugal, que é um bom terreno de prova. Tem um tecido empresarial feito quase só de microempresas (96,1% do total), uma adoção de IA ainda abaixo da média europeia e um debate laboral marcado, em 2026, pelo pacote «Trabalho XXI», rejeitado no Parlamento em junho. Ao longo do texto, os dados portugueses servirão de teste às ideias gerais.

Exposição não é desemprego

Comecemos pela evidência, abandonando duas tentações simétricas: «à IA vai destruir todos os empregos» e «não há nada a temer, a tecnologia sempre criou novos empregos». Nenhuma delas ajuda a ler os dados, que mostram uma realidade mais interessante.

O índice conjunto da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e do instituto de investigação polaco NASK, divulgado em maio de 2025, estima que cerca de 25% do emprego mundial se encontra em ocupações com algum grau de exposição à IA generativa; nos países de rendimento elevado, a proporção sobe para 34% (OIT–NASK, 2025). Mas exposição não é desemprego. Os próprios autores sublinham que os números medem uma potencial exposição, não perdas de emprego, e que o resultado mais provável é a transformação das tarefas e das ocupações, não a sua eliminação. Vinte e cinco por cento não quer dizer que um quarto dos empregos vai desaparecer, quer dizer que uma parte muito importante do emprego mundial entrou numa zona de transformação potencial.

E em Portugal? O estudo mais completo é o da Fundação Francisco Manuel dos Santos, coordenado por Rui Baptista e divulgado em abril de 2025: classificou 120 profissões segundo o potencial de serem destruídas ou transformadas pela IA e pela automação, a partir dos Quadros de Pessoal de 2021 (cerca de 3,2 milhões de trabalhadores, sobretudo do setor privado). O resultado: 28,8% do emprego está em «profissões de colapso», 35,7% no «terreno dos humanos», 12,9% no «terreno das máquinas» e 22,5% em profissões «ascendentes» (FFMS, via RTP). A metodologia não é a da OIT, logo os números não são comparáveis e também não são uma previsão de despedimentos. Mas a desigualdade que revelam é eloquente: 63,4% dos trabalhadores das profissões ascendentes têm ensino superior, contra 5,4% nas profissões de colapso, onde as remunerações médias são também mais baixas. A tecnologia ameaça mais quem tem menos qualificações e menos rendimento — o que faz da formação e da reciclagem uma questão de justiça, e não de escolha individual.

Essa zona não é igual para todos. Nos países de rendimento elevado, 9,6% do emprego feminino situa-se na categoria de maior exposição, contra 3,5% do emprego masculino (OIT–NASK). A explicação está, em boa medida, na distribuição desigual de mulheres e homens pelo mercado de trabalho: as ocupações administrativas, onde as mulheres estão fortemente representadas, apresentam a exposição mais elevada. E existe uma segunda desigualdade, a montante: as mulheres continuam sub-representadas nas profissões ligadas à IA e em várias áreas científicas e tecnológicas. A IA não entra num mercado de trabalho neutro, pois o mercado já é muito fértil em desigualdades. Os administrativos lideram, mas não estão sozinhos: a exposição cresce também em profissões cognitivas muito digitalizadas, nos media, no software e nas finanças. O que importa, mais do que uma falsa precisão percentual, é a taxa de variação, o gradiente — e perceber que, dentro de cada profissão, há tarefas muito mais expostas do que outras.

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