Mazzucato: União Europeia fez “diagnóstico errado” sobre o problema da competitividade
30/06/26 (tradução do comunicado à imprensa da CES – Confederação Europeia dos Sindicatos)
O aumento do investimento – e não a desregulação e a contenção salarial – é o verdadeiro caminho para uma economia europeia mais próspera, revela a investigação da Professora Mariana Mazzucato para a Confederação Europeia de Sindicatos (CES).
Num grande e novo relatório — Labour Squeezed, Investment Stalled (Trabalho sob pressão, Investimento Estagnado) —, a conceituada economista e uma equipa do UCL Institute for Innovation and Public Purpose demonstram como a atual vaga de desregulação da UE é o resultado de um problema de competitividade “mal diagnosticado”, que culpa erradamente o custo do trabalho enquanto ignora o que as maiores empresas da Europa fazem com os seus lucros.
A análise dos dados das 300 maiores empresas não financeiras cotadas em bolsa da Europa, que representam cerca de 40% do PIB da UE, mostra, pelo contrário, que este cenário é o resultado da quebra do investimento e da produtividade. Esta quebra é causada pela acumulação de lucros e por pagamentos mais elevados a acionistas e diretores-executivos (CEOs), em vez do reinvestimento na produção, na inovação e em empregos de qualidade.
O relatório descreve a emergência de um “capitalismo de renda” na Europa, onde os rendimentos são cada vez mais captados não através da produção de algo, mas sim pela detenção de ativos, posições financeiras e poder de mercado, cobrando pelo acesso aos mesmos. Os autores concluem que a Europa deve mudar de uma economia baseada na extração de valor para uma baseada na criação de valor.
As principais conclusões do relatório mostram que, entre 2000 e 2024:
- O investimento líquido caiu de 18,9% para 7,4% do lucro bruto;
- Como quota dos lucros líquidos, os dividendos e a recompra de ações mais do que duplicaram, passando de 27% para 68%;
- Os lucros brutos das grandes empresas não financeiras cresceram 151%, quase duas vezes mais rápido do que os salários, que aumentaram 87%;
- Em 69% dos casos, as empresas que avançaram com reestruturações pagaram dividendos nesse mesmo ano;
- A Europa entregou 3,5 biliões de euros em ajudas públicas às suas empresas, quase sem quaisquer condições sobre o destino final desse dinheiro.
Reagindo a estas conclusões, a Secretária-Geral da CES, Esther Lynch, afirmou:
“Este relatório demonstra de forma conclusiva que os trabalhadores têm sido erradamente culpados pelas más decisões tomadas nas salas de administração das empresas europeias há décadas.
Os CEOs das maiores empresas da Europa têm estado, na prática, a desmantelar os ativos da nossa economia e a exigir, depois, cortes nos salários reais e nas condições de trabalho para compensar os danos. Isto criou uma situação em que todos perdem, resultando numa maior desigualdade e numa menor produtividade.
Mais desregulação e ataques aos trabalhadores só vão piorar as coisas. A Europa não pode ganhar uma corrida para o fundo. O caminho para o sucesso da Europa faz-se através de empregos de qualidade, elevado investimento e alta produtividade.”
O Secretário Confederal da CES, Ludovic Voet, acrescentou:
“É um escândalo absoluto que aqueles que mais se queixam da competitividade da Europa sejam as próprias empresas que a provocaram. Há vinte e cinco anos, as empresas distribuíam 27% dos seus lucros aos acionistas.
Hoje, distribuem 68% — mais de dois terços de cada euro de lucro. Enquanto isso, o investimento líquido produtivo colapsou de 18,9€ para uns meros 7,4€ por cada 100€ de lucro bruto. E, ao mesmo tempo, lançaram 2454 operações de reestruturação, com quase sete em cada dez dessas empresas a pagarem dividendos nesse mesmo ano.
Este é o custo social do capital mal direcionado. Quando os lucros são extraídos em vez de investidos, os trabalhadores perdem os seus empregos, os salários estagnam, a produtividade sofre e o futuro da Europa é posto em risco.”
A CES apela agora aos líderes da UE para que implementem as seguintes medidas:
- Uma Lei do Emprego de Qualidade (Quality Jobs Act) para reverter a precariedade criada;
- Condições no financiamento público para garantir que os lucros são reinvestidos e não desviados;
- A criação de uma procura interna mais forte através da contratação coletiva e de salários mais altos;
- Um instrumento permanente de investimento da UE para substituir o Mecanismo de Recuperação e Resiliência.”
O relatório integral está disponível aqui: https://us.list-manage.com/NdqyZL_0avo?e=6af329adec&c2id=180b7fffc9d65058271bf587a3131a34