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ALGUMAS QUESTÕES A PROPÓSITO DO CONGRESSO DA CGT

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Fomos talvez surpreendidos com o que se publicou à volta do 53º Congresso da CGT em França. 

A mítica central sindical, tanto tempo inspiradora, foi apresentada como, não paralisada, pois animou e manteve uma frente sindical ativa, de luta intensa face à reforma das pensões, de Mácron, mas enrolada entre posições desavindas, sem evidenciarem capacidade de união.  

Este é o cúmulo de um processo de anos. A divisão nasceu e cresceu a par com a crise e desaparecimento do PCF. Ele próprio, morrendo e dividindo-se. Quem não ganhou na CGT,  ergueu trincheiras e organizou-se – mas divididos, não se dividiram nem foram fazer sindicato para outro lado. Mas fizeram um sindicato dentro da CGT. E com uso de blogues, sites, FB, grupos online sem fim, altamente ideologizados. Com tudo isso, a CGT terá perdido membros e apoios (e, parece, que todo o movimento sindical francês). Passou da sempre 1ª central, para depois da CFDT. 

A contenda interna pareceu manter-se por ser tão grande o equilíbrio de forças mas não tenho informação suficiente para interpretar o que se foi passando. 

Numa referência que forneço no final deste texto diz-se: “Na CGT de hoje, uma certa “oposição” cristalizou-se desde a 52ª congresso em 2019. Organizou-se, criou um sítio eletrónico e organizou encontros nacionais (o que não é em si uma crítica o que, por si só, não é censurável, num funcionamento democrático), e por vezes até mobilizações “paralelas” às da confederação. 

Não são muito visíveis, confundem os trabalhadores a quem se dirigem em nome da CGT, e até são desmoralizadores para militantes e ativistas. O site chama-se Unité CGT. É pelo seu conteúdo público que devemos examinar o conteúdo de algumas das divergências que atravessam a CGT. Na realidade, os debates também proliferam fora deste site, que é principalmente dedicado a apoiantes de um regresso da CGT à Federação Sindical Mundial (FSM), da qual saiu no congresso de 1995, decisão repetidamente confirmada.” 

 

Recolhendo informação fidedigna, vinda de quem é ator diário na CGT e ativo neste congresso, sintético e focado é este “relato” que vos faço. Essencialmente, com a noção da importância da crise que a CGT atravessa e de como toca questões estratégicas essenciais, bom motivo de reflexão para o movimento sindical em geral. 

 

Este último ano de preparação para o congresso foi conflituoso na Cgt. Pelo menos 3 tendências opõem-se umas às outras. 

A primeira é muito dura, propõe a greve ilimitada e a reintegração na FSM (apoiada muito explicitamente por Continuer la CGT, Rouge Vif e incidentalmente Jean-Pierre Page que é sempre muito ativo e que foi secretário internacional e é um grande aliado dos camaradas pró-Fsm da CGTP). Eles são contra a unidade de ação com a CFDT, mas também com os outros sindicatos e contra qualquer discussão com o governo. O seu candidato era o secretário geral da CGT de Marselha (Mateu). Tinha um problema para além de não conseguir reunir uma maioria no seu nome, o facto de o Comité Executivo ter votado a favor da candidatura de uma mulher. Tentou propor uma coliderança com Céline Verzelletti – uma das possíveis candidatas – mas era difícil imaginá-lo a partilhar o poder, quanto mais com uma mulher gay! 

A 2ª possibilidade, o candidato proposto por Philippe Martinez, Marie Buisson, SG da Federação educação-investigação-cultura. Ela tinha entrado para a direção confederal a meio do mandato – após uma saída. Tem posições feministas e ambientalistas. Levava também o documento “Nunca mais” assinado com a Greenpeace e a Oxfam. 

É um dos símbolos do que é censurado, em particular pelas grandes federações: uma liderança autoritária e decisões tomadas por alguns e depois validadas pela CE sem discussões reais. Marie representou uma opção mais avançada sobre as questões da transição climática, mas sobretudo a unidade de ação e, para além disso, propôs uma fusão com a FSU e a Solidaires. 

A 3ª opção, Celine Verzelletti, que não era uma candidata oficial mas de que se falava nos corredores. É uma adversária de Martinez, SG de saída, numa linha mais dura, inclusive neste momento nas relações com a Cfdt, e é bastante sensível a uma dupla filiação da ITUC / CSI e da WFTU / FSM 

Na abertura do congresso a atmosfera era muito tensa, mesmo violenta (incluindo o medo de confrontos físicos entre alguns). 

Todo o debate foi tempestuoso e difícil. O relatório de atividade foi rejeitado em mais de 50%, mas o documento político foi adotado em mais de 75%; e houve também um apoio generalizado para permanecer apenas no ITUC / CSI. 

Quando a reunião do CCN (Conselho Confederal Nacional) abriu na quinta-feira à noite, estavam todos num estado de incerteza. Era impossível saber quem seria o SG e quem seria membro da direção. 

A lista da CE (Comissão Executiva) foi aumentada para 66 membros, de modo a incluir a tendência mais radical. 

As candidaturas (com propostas de membros da Mesa da Confederação) de Marie Buisson e Celine Verzeletti foram rejeitadas uma após a outra: elevado risco de divisão interna da Cgt; posições impossíveis de partilhar… 

A eleição de Sophie Binet não foi uma surpresa total. Muitos pensaram nela como SG durante muito tempo, mas ela vem da UGICT (organização de quadros) e muitas pessoas ainda têm uma imagem da Cgt como organização de trabalhadores. 

No entanto, como era absolutamente necessária uma mulher, existem hoje poucas mulheres líderes na Cgt com o perfil e as capacidades para o cargo. 

A Mesa Confederal inclui todas as tendências exceto as mais extremas. Imagino que as reuniões terão fortes debates. Mas com Sophie, a porta permanece aberta para a unidade de ação, fusão com a FSU e Solidaires e questões ambientais. 

O que está em jogo é o futuro da CGT: há que enfrentar os desafios atuais e futuros (ambiente, aquecimento global, transição ecológica, novos empregos/novos sectores, uma reflexão sobre o progresso tecnológico, inteligência artificial, abertura aos jovens…), mantendo-se uma organização de classe e de luta?  

 

 

Vai a CGT permanecer (ou mesmo regredir) numa visão anterior aos anos 90 a preto e branco com os bons de um lado (nós) e os maus do outro? 

Vai vingar uma visão estreita da identidade, tão inseguros que não podem prever nem a unidade de ação nem a fusão? 

Ou vão abraçar o que está para vir: novos jovens membros, migrantes como eles são, novos empregos e organização do trabalho, novas questões interessantes e perturbadoras?  

E outra questão importante: a da modernização da forma como a CGT está organizada, em particular o número de federações que ainda está acima dos 30! 

Com a eleição de Sophie, muitos recuperaram o otimismo. Vai ser difícil, mas a CGT tem mantido o seu potencial para o futuro. 

 

ALGUMAS FONTES DIVERSAS DE INFORMAÇÃO COMPLEMENTAR 

Naturalmente que toda esta informação está em francês. O uso do browser/motor de busca CHROME e a instalação do GOOGLE TRADUTOR, oferece a possibilidade de traduzir o conteúdo dos sítios. A instalação e uso são muito amigáveis e intuitivos. Boas leituras. 

Se precisarem de ajuda para este processo, podem contactar-me. 

Em https://www.cgt.fr/ encontram informação sobre o congresso. 

FSU é a Frente Sindical Unitária, https://fsu.fr/, é a 2ª organização mais representativa da função pública e a 1ª de professores. 

Solidaires é a outra organização sindical em questão https://solidaires.org/se-syndiquer/apropos-de-solidaires/presentation/ 

UGICT, https://ugictcgt.fr/qu-est-ce/ , é a organização de quadros e técnicos da CGT 

Antes do Congresso, foi publicado este artigo de perspectiva sobre o que se estava a passar e as linhas de força em presença, https://www.bfmtv.com/economie/economiesocial/social/probleme-d-orientation-la-cgt-prepare-l-apres-martinez-sur-fond-de-profondesdivisions-internes_AD-202303280536.html 

Mas para o “Relações de Força”, , https://rapportsdeforce.fr/classes-en-lutte/cgt-les-cinqlignes-de-fracture-qui-secouent-le-congres-033017517 , são 5 as linhas de fratura. 

Aqui https://www.liberation.fr/economie/social/les-grands-travaux-de-sophie-binet-a-la-tetede-la-cgt-20230331_CZION4PN2NDY3HPYY6D5U5MYDM/ têm um artigo do Liberation sobre os trabalhos da nova SG, a 1ª mulher a ser SG 

Um passo para o sindicalismo unitário é o tema desta análise dos documentos confederais ao congresso e está aqui: https://syndicollectif.fr/wp-content/uploads/2023/02/53%c3%a8mecongr%c3%a8s-et-unit%c3%a9-syndicale-1.pdf 

A análise critica dos documentos do congresso pela Tendência Marxista Internacional está aqui https://www.marxiste.org/actualite-francaise/luttes-mouvement-syndical/3185-congres-de-lacgt-notre-analyse-des-documents 

Em 22 de Março , P Martinez, o SG de saída, dá esta entrevista ao Le Monde, https://syndicollectif.fr/interview-de-philippe-martinez-le-monde/ 

https://syndicollectif.fr/wp-content/uploads/2023/01/critique-de-lopposition-pro-FSM-1.pdf aqui encontram uma análise crítica sobre as oposições dentro da CGT; documento importante para a compreensão da realidade.


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